A criança "problema"


Só quem tem filhos temperamentais sabe exatamente como a própria casa pode se transformar num campo de batalha! Costumamos nos referir a essas crianças como crianças difíceis, de fato elas acabam sendo muito difíceis no lidar do dia a dia. Mas acredito que grande parte dessas crianças foram, em algum momento e em algum contexto, crianças mal compreendidas.

Muitas reagem através de uma agressividade verbal ou física, outras através de atitudes pirracentas e desobedientes que levam às mães e os pais à beira da loucura. Outras somam a agressividade e a pirraça e se transformam em verdadeiros encrenqueiros. Em geral são crianças que persistem com essas atitudes até levar o outro ao próprio limite - limite que muitas vezes é o grito (gritarias sem fim) e a tão conhecida palmada, que, no fim das contas, não resolve lá muita coisa.

Muitas vezes, esse comportamento infantil começou como uma forma de chamar atenção dos pais, ou como forma de manifestar um desconforto com relação a alguma coisa. Só que com o tempo, as ações da criança foram sendo encaradas como algo “desviante”, algo “problemático”, até porque são comportamentos que (principalmente quando persistente e repetitivo), de fato, perturbam o ambiente e a família como um todo. A criança que muitas vezes nem entende direito porque tem aquela atitude, começa também a associar a algo problemático, e não mais o comportamento dela é um problema, mas ela mesma se torna um problema.

Nesse ponto nos deparamos com um estigma. Marcamos a criança com um significante que dá sentido aquilo que ela faz. Ou seja, em sua cabecinha ela entende que ela faz aquelas confusões todas porque ela é uma criança “problema”. Isso é suficiente para ela, pois o sentido depositado em suas ações “desviantes” lhe diminui a angustia, é quase que uma solução. Se antes ela vivia em conflito com seus comportamentos e sentimentos (com pensamentos tipo: “Por que faço assim? Por que insisto nesse comportamento se não gosto de ver mamãe assim?”), agora ela compreende : “Ah, eu faço essas coisas porque sou uma criança “problema””.

Se a forma da família e os outros contextos em que a criança transita impulsiona ou não faz nada para modificar essa forma de ver a criança, o caminho só tende a piorar, pois a criança se sente compelida a repetir suas atitudes difíceis para permanecer correspondendo ao lugar de “problema” em que foi colocada. Pois esse lugar lhe oferece sentido, e portanto, diminui seus conflitos e angustias infantis.

Procuro orientar essas famílias começando pela forma de enxergar o próprio filho e suas atitudes “difíceis”. Não é tarefa fácil, posso assegurar, mas extremamente necessária, pois oferecemos a possibilidade da criança se identificar com outra coisa que não seja o “problema”.

O primeiro passo então é tentar enxergar os comportamentos do filho como uma forma de falar algo que ele tem dentro dele - um sentimento, uma insatisfação, e até mesmo uma alegria. Tentar ver nas pirraças uma maneira de expressão que não encontrou outra forma de se revelar. Precisamos entender isso primeiro, para que depois possamos oferecer outras formas de reação da criança que não seja pela via do problema, da pirraça, da agressão. (Como fazer isso é muito particular a cada caso, por isso não entrarei nesse detalhe aqui).

Essa situação é muito mais difícil para as mães que se encontram muito sozinhas em casa; muito disponíveis para os filhos; sem outras ocupações para além dos filhos; ou que não tem um suporte dos pais ou de um outro que seja referência para a criança (pode ser um avô, uma avó, um tio, uma tia, o companheiro ou a companheira).

Nesses casos sugiro que o pai ou alguém de referência para a criança possa participar mais ativamente, algumas consultas apenas com o pai (ou com o outro suporte da mãe) ou com o casal podem ajudar nesse reajuste. O acompanhamento psicológico da mãe (ou de quem se encontra mais diretamente cuidando da criança), principalmente nesses casos, se mostra um benefício para mãe e filho. A relação entre duas pessoas se encontra sempre permeada de sentimentos, experiências e lembranças inconscientes que muitas vezes interferem negativamente na relação presente, e isso vale também para a relação entre mãe e filho. Por isso o acompanhamento psicológico ajuda no processo de dissolver e reorganizar esses conteúdos de forma a promover uma relação mais sadia e mais leve entre mãe e filho.

Além disso é fundamental combater o isolamento e o cansaço da mãe que se encontra diariamente exposta ao campo de batalha com o filho. E para resolver isso, vale procurar atividades (ou de trabalho ou de lazer) fora de casa sem a participação do pequeno, um momento exclusivamente da mãe. De forma que mãe e criança possam ter momentos independentes, e até mesmo, longe um do outro, onde possam vivenciar e experimentar coisas que não estejam associadas a relação mãe/filho. Já dizia Dolto: “Se mãe e filhos estão em casa juntos é para que haja mais trocas entre eles e para que compartilhem da alegria de estar reunidos. Se não, não vale a pena”.

Pois, apesar do que se acredita, permanecer muito tempo sendo único objeto de preocupação e ocupação da mãe não é nada salutar para a criança em desenvolvimento. Essa separação não só se mostra importante para a situação descrita nesse artigo, onde criança e mãe vivenciam uma relação difícil, como ela é fundamental para a constituição subjetiva da criança em geral.

Quer saber mais? Então envia sua pergunta ou agende um horário! Terei um prazer enorme em poder ajudar!

#criança #filho #mãe #pai #família