O corpo fala - o sintoma infantil


Esse tema é muito interessante, mas muito mais complexo do que será exposto aqui. Tentei utilizar uma linguagem que fosse acessível tanto aos estudantes e profissionais da área psi como às famílias que se interessar pelo tema. Destaco a importância de vocês lerem sabendo que cada caso é um caso e que na dúvida é melhor consultar um profissional, ao invés de se encher de angústias e sofrimentos antecipados.

Bom, vamos ao sintoma*! O sintoma, em geral, é uma forma de fala do sujeito. Uma manifestação do inconsciente. De forma resumida e simples de dizer, o sintoma é resultado de um conflito - entre aquilo que desejo e aquilo que é possível /aceito socialmente ou que esteja de acordo com a história daquele sujeito.

No caso da criança, as coisas não são muito diferentes. Porém o fato da criança não possuir o domínio mais amplo da linguagem falada, ela acaba não conseguindo, portanto, falar sobre as coisas que a afligem, que a incomodam, que causam certo nível de desconforto, angústia ou sofrimento. Se ela não sabe ou não consegue falar sobre seus sentimentos, sobre o que sente - até porque muitas vezes ela não tem a menor ideia do que de fato está sentindo ou não consegue identificar sequer o motivo que desencadeou aquele sentimento - ela então vai mostrar aquilo de alguma outra maneira. Através do choro, do grito, de algum sintoma orgânico (somatização), através de comportamentos de agressividade, ou de pirraça, ou de agitação, do medo, de uma enurese noturna (para todos eles, considerando que se trata de uma criança sadia, sem diagnóstico definido de alguma patologia). Enfim, são INÚMERAS formas possíveis de descarregar o conflito que vivencia internamente.

É por isso que sempre que há algum evento importante ocorrendo na vida da criança ou da família - como, por exemplo, a chegada de um irmãozinho - a criança acaba manifestando algum tipo de sintoma, que pode ser brando, organizador - o que quer dizer, que ele é necessário naquele momento como meio da criança apreender os novos acontecimentos - mas ele pode ser, ao mesmo tempo, prejudicial ou ir assumindo cada vez mais uma intensidade perturbadora para toda a família.

Nesses casos, o acompanhamento com um psicólogo ajudaria muito, pois trata-se de um trabalho que tenta por em palavras aquilo que a criança está colocando no corpo ou nos seus comportamentos, e portanto, ela substitui seu sintoma, ou por um sintoma mais brando e mais funcional, ou pela fala, o que representa a suspensão do sintoma que incomodava tanto.

Apesar disso, eu poderia dizer que os sintomas infantis são parte integrante de seu desenvolvimento. Por exemplo, os comportamentos obsessivos (colocar as coisas todas em ordem de tamanho, em ordem de cor. A insistência em combinar sempre determinada coisa com outra, etc) que vemos tantas vezes se reproduzir entre as crianças é muito comum e até desejado, enquanto não atrapalhar a vida social e pessoal da criança em questão. Pois, o sintoma infantil significa que a criança percebe que algo ali naquele meio lhe impõe um limite, lhe impõe regras, promove restrições a seu desejo; de alguma forma, a criança entende que tem coisas que deseja mas que não poderá fazer!

Por outro lado, a ausência de sintomas é algo que nos chama a atenção e que funciona como um alerta.

Vejamos no caso do recém-nascido. Um bebê quando chega ao mundo, ele tem que se adaptar a uma série de coisas totalmente nova. Tudo que ele percebe, sente, experimenta, vê, soam à princípio muito estranhas para ele, e a forma que ele responde a isso é através do choro, através do seu padrão de sono, ou da forma que solicita ou nega a alimentação (sintomas muito comuns nesse período). Mas também através da manifestação de otites, de resfriados repetitivos, de uma dermatite mais intensa, de diarréias ou prisão de ventre (que não estejam associadas à alguma patologia diagnosticada, é claro).

Ou seja, o corpo fala! E o que ele está dizendo é que ele (o bebê) já tem, mesmo desde muito pequenino, algo que se constituirá no seu desejo, na sua individualidade, e que tem coisas que ele gosta e coisas que ele não gosta, coisas que ele sente e coisas que ele percebe mas não compreende, e que como ele não sabe falar ele precisa descarregar de outra maneira. Em outras palavras, é a forma que o bebê tem de informar à mãe e ao pai que ele não corresponde ao bebê idealizado de papai e mamãe, mas sim que ele tem seu jeito todo especial que deverá ser reconhecido. Não é uma luta de forças ou de autoridade, longe disso, é apenas a forma que o bebê tem de mostrar que tem coisas ali que não se encaixam para ele - ou a forma de insistir num alimento, ou a maneira de lhe trocarem, ou os beijos insistente do outro, etc. Ele sente um desconforto e manifesta da forma que lhe é possível a cada momento do seu desenvolvimento.

Bom, e aqueles bebês que não adoecem nunca, que não choram, não produzem sintomas? A ausência de sintomas - sobretudo nessa fase bebê - representa a falta de um contato verdadeiro com o mundo que o rodeia. O outro, as investidas do outro sobre ele (beijos, carícias, ausências, cuidados) não reverberam nele. É como se ele fosse indiferente ao outro. As regras de funcionamento do mundo externo parecem não chegar até ele. Quase não reage às mudanças externas, e às sensações internas de fome e frio, etc. Geralmente são crianças que não choram quando estão com fome. Essas crianças seguem o ritmo que lhe é imposto, são caracterizadas como “obedientes”, calmas, não choram, não reclamam. Quando as crianças são caracterizadas dessa forma, o melhor é procurar ajuda profissional, pois algo não vai bem.

Poderia escrever ainda muitas coisas, trazer vários exemplos, mas o exemplo falaria apenas do sintoma que a criança apresenta, quando na verdade o sintoma deve ser tomado dentro de um contexto. Importante reforçar que a criança vem acompanhada de uma história, e que a história da mãe e do pai faz parte da história da própria criança. Tendo isso em mente, não podemos pensar a criança isolada dessas histórias da qual faz parte, o que significa que o contexto em que vive essa criança é fundamental para compreender o caso como um todo. Sem ele, sem o contexto, que implica a mãe e o pai, e as vezes um irmão, uma avó… os sintomas sempre vão parecer problemáticos e patológicos e aí entramos em outra zona de perigo!

Fica o recadinho, quem quiser aprofundar melhor esse tema me procura por e-mail, ou agenda uma consulta de avaliação, no caso de famílias, ou supervisão, no caso de profissionais ou estudantes!

*O sintoma em psicanálise (que é abordagem que me orienta na clínica) aprofunda esse conceito de formas mais detalhadas e complexas que não foram incluídas aqui para que o texto tivesse uma linguagem mais acessível, e também, porque eu teria que falar de outros conceitos psicanalíticos que não viria ao caso no momento.

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