Limite ou trauma?


Já que o nosso próximo seminário vai tratar da psicanálise com crianças, aproveito para introduzir (como havia prometido há algumas semanas) um tema que é bastante frequente na minha clínica.

Falar de limite e trauma não é nada simples, muito menos fácil, pois para compreender o que trago sobre ele é fundamental entrar em alguns conceitos da psicanálise que, certamente, são desconhecidos para aqueles que não possuem familiaridade com essa teoria. Tentarei abordar esse tema a partir de um caminho onde trago a teoria psicanalítica de forma mais acessível. Digamos que tento utilizar uma linguagem menos técnica.

Para começar: por que o título limite ou trauma? Uma provocação, eu diria! Pois percebo que há uma tendência nos pais em associar a proibição, o não, o ato de impor limites, como possível promotor de traumas infantis. Acredito que a existência dessa crença dos pais diz respeito ao fato de que ao impor o limite, ao tentar transmitir determinadas regras aos filhos, acabamos por limitar seu prazer, e por provocar frustrações. E a maioria dos pais acreditam ou temem que essa frustração possa ser danosa ao filho.

No entanto, o limite imposto pelos pais (que inevitavelmente promoverá uma frustração) O LIMITE É ORGANIZADOR; é o que oferece esteio, baliza, referência. É algo que, para criança, serve de muro, barra, contra algo que pode machucá-la. Inclusive, é comum vermos as crianças testando esse limite o tempo todo, como se buscassem uma certeza, como se precisassem se certificar de que aqueles responsáveis por elas (seus pais ou cuidadores) são fontes seguras, que eles de fato intercederão diante de algo que possa machucá-las, independente do quanto insistam no contrário. Eu diria mais. O LIMITE É O QUE INAUGURA O SUJEITO (a propósito, título de um dos capítulos de meu livro). E nesse sentido ele tem tudo a ver com o trauma.

E o trauma?

Há duas formas de compreender o trauma em psicanálise.

O que é traumático para psicanálise é aquilo que não é dito. É a ausência de sentido, a falta de compreensão com relação a determinado evento ou situação na vida do sujeito. São as coisas que percebemos por trás daquilo que nos é dito. A mentira é o que gera o trauma. A incapacidade de compreender determinados eventos e acontecimentos da sua própria vida (por inúmeros motivos) é o que gera o trauma. Esse trauma é o que promove o sintoma infantil Diante de algo que não consegue dizer ou compreender a criança reage a partir de alguma coisa que pode ter valor de sintoma. Mas o trauma sobre o qual o título deste artigo se refere é um trauma anterior a esse. Um trauma que eu chamarei de trauma original.

O trauma original é organizador, assim como o limite, pois ele promove a falta fundamental do sujeito. Ele é resultado da cultura, da inserção no mundo simbólico, e, portanto, um mundo de regras e normas que existem para organizar a vida em sociedade. O mundo simbólico, o mundo da linguagem, é um mundo de limites, pois é impossível dizer as coisas exatamente do jeito que sentimos e pensamos, e experimentamos. Há sempre algo que nos escapa, que é impossível de acessar e dizer.

Esse trauma ocorre muito cedo na vida da criança, pois desde cedo ela entra em contato com a linguagem do outro. A verdade é que antes mesmo dela nascer ela já é falada, já se encontra imersa num mundo de linguagem, nas fantasias que os pais criaram sobre sua chegada, sobre seu ser, sobre sua personalidade, etc. Posteriormente, depois que nasce, a medida que vai percebendo o funcionamento do mundo - que nem tudo ocorre como gostaria, por exemplo - a medida que vai se desenvolvendo, vai tendo que reprimir e abdicar de prazeres infantis para ira avançando no seu desenvolvimento. Desta forma, o próprio processo de desenvolvimento infantil ajuda a estabelecer esse trauma original com a ajuda dos limites que vão sendo impostos pelos pais e cuidadores.