Imperativos da maternidade ideal

"Quando se vive na sociedade da perfeição, só existem os imperativos categóricos, as normas incondicionais, as ordens que vem de nenhuma parte, as instruções ao infinito e os seres que obedecem sem saber a quem eles obedecem” (LEGUIL, 2018).


Esse é um belo retratado do que convenho chamar a maternidade ideal. O que encontramos não é exatamente cada vez mais imperativos categóricos de como e do que se deve fazer quando se é mãe ou quando um bebê nasce? A infinidade de regras, de normas e modos de agir e pensar que surge nesse universo não é nada fácil de calcular, pois chega ao infinito - cada instrução nos remete a outra, e outra e outra. Não há como escapar. (Ou parece não haver).


É tudo tão imperativo e tão carregado de certezas que quem não segue a risca teme cair na definição de “péssima mãe” e, também, corre o risco de não ter um filho “perfeito” (mais um indício de sua alienação). Posso mencionar algumas das inúmeras frases que costumo ouvir das próprias mães, que reproduzem a torto e a direita sem nem sequer se questionar se aquilo, de fato, faz sentido ou não para elas, para a pessoa que elas são, para a personalidade e para a história que elas carregam, assim como, para a situação particular familiar, social e financeira. É por um “Tem que...” ou “Não pode de jeito nenhum...” que começam todos esses imperativos. “Tem que amamentar... porque é o melhor para o bebê, ...porque protege disso e daquilo, ...porque garante a imunidade, ...a única alternativa aceita, e isso depende de quantos meses seu bebê tem, é a colherzinha, uma ferramenta nada prática mas que garante tudo o que é melhor para o bebê, etc.”. “Não pode dar mamadeira, muito menos chupeta... porque entorta os dentes, ...porque o bebê pode viciar, ...porque faz confusão de bicos e isso é imperdoável, pois você como mãe tem que querer amamentar e fazer de tudo para que isso aconteça, etc, etc”. “Não pode ficar longe da criança mais do que tantos minutos, porque senão a criança fica traumatizada”. “Tem que estar sempre disponível”. “Tem que estar sempre sorrindo”. “Não pode gritar”. “Tem que ter paciência o tempo todo”. Ou seja, tem que ser uma ser irreal e inexistente.


Não importa o sofrimento ou a dificuldade que aquele ato ou não ato carrega para cada mulher em particular, pode ser uma simples recusa de não seguir o que o outro sugere (uma “birra” segundo o senso comum), como pode ser uma recusa inconsciente relacionada a sofrimentos e experiências que exige um resgate doloroso (e muitas vezes também inconsciente) de sua própria história e das suas relações.

Mas não pensam nisso aqueles que militam em torno de uma maternidade certificada pelos preceitos científicos que oferecem a garantia do status da mãe perfeita e consequentemente filhos maravilhosos, felizes e saudáveis. O mantra que sustenta seu discurso é o sacrifício - ou seja, pode até reconhecer uma certa dificuldade em seguir todos esses imperativos, mas não está em questão se é possível ou não segui-los, o discurso é claro: é “NECESSÁRIO”, é “INQUESTIONÁVEL”, ou seja, “TEM QUE”, independente da dificuldade. Há, inclusive a necessidade de controle do pensamento, do sentimento e dos desejos pessoais, pois uma mulher ao ter filhos tem que querer amamentar com toda sua força, perder as noites de sono sem reclamar, estar disponível 24 horas sem se esgotar, e ainda se realizar com tudo isso.

Parece que estou exagerando, mas a verdade é que na prática é exatamente isso que as mães carregam como modelo de maternidade : “Como eu como mãe não quero ou não gosto de amamentar meu filho se isso é tão importante pra ele?”. A resposta é muito simples: “Porque você como mãe não é um robô, você tem sentimentos, desejos, desconfortos e uma personalidade que lhe remete a sua historia, que é extremamente particular.”



Uma mãe, é antes de tudo uma mulher, e antes de tudo um sujeito. Tem saberes sobre nós mesmos que escapam a nossa consciência e ao nosso controle. A ideia de que existe uma forma “correta” de desempenhar a maternidade, e que essa forma, se seguida a risca, pode garantir a felicidade e a saúde da criança e da mãe, nos coloca longe, muito longe, de reconhecer a existência da subjetividade humana.

A militância em favor desse modelo ideal de maternidade - em que todos os imperativos, não importa qual, são levados em consideração como o “certo” a se fazer - antes de promover o que propõe (a saúde emocional e física da criança) colabora com um certo apagamento do próprio sujeito - e aqui, creio eu, podemos entender os dois sujeitos envolvidos - a mãe e o filho. Mãe e filho, de certa forma, parecem impossibilitados de terem acesso à própria subjetividade, à sua parte única, à sua singularidade, às próprias idiossincrasias, e, claro, ao próprio desejo que os fazem constituir-se como sujeitos.