O pós-parto: algumas palavras sobre o Baby-Blues

Olá, Mamães e Papais,

Que tal falarmos um pouco do pós-parto, mas não apenas da parte mais gostosa, mais realizadora, mas também de algo que acomete mais da metade das mães sem que se saiba da possibilidade da sua existência? Refiro-me ao Baby Blues, um estado psicológico específico do pós-parto, que acomete mais da metade das mulheres e que, justamente, por não saberem do que se trata sentem-se muito angustiadas quando surpreendidas por ele.

Para começar, se pudesse definir em poucas palavras o que é o pós-parto, poderíamos dizer que é uma gestação extra-uterina, ou seja, o quarto trimestre da gravidez. Pois, o bebê humano, diferentemente dos outros mamíferos, nasce dependente dos cuidados do outro, cuidado imprescindível para sua sobrevivência, um cuidado que acaba exigindo da mãe a reprodução de uma assistência semelhante ao que oferecia quando o bebê ainda estava na barriga, quando recebia o alimento continuamente através do cordão umbilical, assim como o calor, o embalo, a proteção. Esse cuidado contínuo demanda da mãe uma atenção igualmente constante e uma dedicação quase exclusiva, onde ela muitas vezes permanece esquecida e abandonada, por ela mesma e pelos outros que estão ali para ajudar.

Além disso, o pós-parto é um período onde a mulher experimenta uma série de mudanças, muitas vezes difíceis de lidar. Percebe mudanças no corpo, que não se assemelha ao corpo de antes da gestação. O trabalho repetitivo e monótono que é o cuidar de um bebê, não corresponde à ideia que tinha da chegada do recém-nascido. O próprio bebê vai aos poucos manifestando seu jeitinho particular, que, de certa forma, também entra em desacordo com a idealização que se fez deste. O que está em questão aqui não é que o bebê deixa de ser aquela criança tão sonhada e desejada, mas sim que ele tem suas necessidades pessoais que fogem ao controle da mãe. Vem, assim, a constatação de que aquele serzinho é um ser individual, diferente da mãe, porém dependente dela. Além de tudo isso, a atenção que a mulher recebia durante a gestação é transferida para o bebê, logo num momento em que os carinhos e os mimos são tão importantes para que a mãe atravesse esse período de forma mais tranquila.

As dificuldades com a nova rotina é uma realidade que muitas vezes não se limita à parte prática, de troca de fraldas, banho, alimentação, cansaço, noites mal dormidas, sono e cólicas do bebê, mas que ultrapassa os cuidados necessários com o recém-nascido alcançando o emocional e o psicológico da puérpera, que frequentemente se sente incapaz, sozinha, com vontade de chorar aparentemente sem motivo, culpada, e mais sozinha. Quando falamos em pós-parto não se trata de preparo ou despreparo, mas de um estado psicológico específico. Esse estado é denominado “preocupação materna primária” (WINNICOTT), Baby Blues (Disforia Puerperal) ou Tristeza materna, e é considerado a forma mais branda dos quadros de dificuldades puerperais e podem ser identificadas em 50% a 85% das puérperas, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados.

O Baby Blues consiste num estado de humor depressivo que aparece, geralmente, a partir da primeira semana depois do nascimento do bebê. Esse humor depressivo pode se apresentar através do choro fácil, da instabilidade afetiva, indisposição, tristeza, sentimento de incapacidade de cuidar do bebê, baixa autoestima, entre outros. Porém, as mulheres com disforia pós-parto não precisam necessariamente de intervenção farmacológica. Esse quadro não é considerado anormal. Neste estado, as mães se encontram hipersensibilizadas às necessidades do recém-nascido, tornando-se capazes de responder a essas necessidades básicas, pois se encontram voltadas para si mesmas e para o bebê, desconectadas do mundo externo.

Em outras palavras, para que uma mãe seja capaz de se adaptar à rotina de um bebê, de se adaptar à linguagem e o ritmo do recém-nascido, a mulher tem que reduzir muito suas expectativas com relação à sua própria privacidade e à agitação e demandas do mundo externo. O baby blues promove esse rebaixamento das expectativas e uma reclusão que de certa forma propicia a dedicação ao bebê. Dito ainda de outra maneira, esse baby blues, esse misto de tristeza e choro do pós-parto, é muitas vezes a expressão de uma identificação com o bebê desamparado e, portanto, o caminho possível para a maternagem. Vale ressaltar que, apesar de ser um estado comum ao pós-parto envolve uma quantidade considerável de sofrimento, podendo evoluir para algo grave como uma depressão.

Aqueles que dão assistência à puérpera, devem ter sempre em mente que todo ciclo gravídico-puerperal é considerado período de risco para o sujeito devido à intensidade da experiência vivida pela mulher. Portanto, fiquemos sempre atentos, pois quando a tristeza materna se torna incapacitante, afetando a funcionalidade da mãe e pondo em risco o seu bem-estar e o do recém-nascido, já não se trata de uma tristeza característica do período pós-parto, estamos falando de algo da ordem do patológico. E nesse caso a procura por um profissional deve ser imediata, pois quanto antes começar um tratamento, mais rápida será a resposta positiva de recuperação.

Até a próxima