Uma breve revisão bibliográfica acerca do psiquismo materno no pós-parto


O tema da perinatalidade vem ocupando cada vez mais os estudos acerca do desenvolvimento infantil e as psicopatologias do bebê e da mãe. Avalia-se, inclusive o desenvolvimento de cada país a partir da presença de políticas que atendam à demandas dessa área especifica.

Preocupada em compreender por que se adoece tanto psiquicamente no pós-parto, delineei o objeto partindo do pressuposto da presença de uma vulnerabilidade no psiquismo materno durante o período pós-natal. Vulnerabilidade essa que é assinalada, discutida e explorada por diversos estudiosos do campo da perinatalidade. O saber médico, por exemplo – no qual o par mãe e bebê, inicialmente se inscrevera – parece sempre incompleto, pois não se considera esses personagens como subjetividades. Assim, mesmo que a perinatalidade encontre boa parcela dos seus eventos no ambiente hospitalar, nas UTIs Neonatais, nos centros obstétricos, cercados de profissionais da área de saúde, médicos e enfermeiros, etc., o saber que se constrói nesses locais não consegue dar conta das questões que clamam por respostas a respeito da maternidade, e, especificamente, do pós-parto, a que se propõe esse ensaio.No levantamento bibliográfico a respeito do tema em questão constatou-se que a preocupação com as psicopatologias do puerpério são muito mais antigas do que se pode imaginar. A obra precursora da psiquiatria perinatal, data de 1858 (Traité de la folie des femmes enceites, de Louis Vuitton Marcé). No entanto, segundo o próprio precursor, Louis-Victor Marcé, foi Esquirol, em 1838 que “chamou atenção sobre essa variedade de loucura”. (MARCÉ, apud LEBOVICI, S; MAZET, P., 1998, p. 21). Apesar de em 1838, as patologias do puerpério serem compreendidas como estando intimamente relacionadas às alterações corporais da mulher nesse período, já havia uma crença de que as doenças da mente no puerpério não eram devidas unicamente às influencias físicas, mas algumas poderiam ser classificadas como afecções morais, que, segundo a descrição do autor, parece ter uma relação com as superstições e crenças culturais, mas que, por vezes é recheada de conteúdos que podem ser classificados como influência do psiquismo e da subjetividade de cada mulher. É o que podemos destacar, por exemplo, com relação ao trecho da obra de Esquirol (1938, p. 119):

"De nossas 92 mulheres, 46 tornam-se alienadas por causa de doenças morais. A crença no adoecimento depois de ter um primeiro acesso de loucura, o desespero causado pela perda de um bebê ou um abandono do pai, pela cólera, a tristeza, a prole, as demandas domésticas, são todas causas desencadeantes.”De fato esse trecho nos coloca muito mais questões do que as sublinhadas acima referente ao psiquismo e à subjetividade. Esse trecho de Esquirol, apesar de muito preso às questões do corpo, propõe uma análise sobre as causas das loucuras maternas estabelecendo uma relação com questões relativas à família, às intercorrência, os eventos, os avatares de conteúdos familiares, que dizem respeito à organização e ou ao apoio familiar. Podemos enumerar ao menos duas delas, citadas pelo próprio autor: perda do filho e abandono do pai do bebê. Mas antes de entrar nessa problemática, avancemos na literatura bibliográfica a fim de traçar melhor o objeto de estudo implicado.Como podemos observar, apesar de verificarmos importantes produções científicas a respeito das psicopatologias do puerpério, a preocupação com a loucura materna, no entanto, prosseguiu de forma bastante humilde e silenciosa. O campo da clínica perinatal (psiquiátrica inicialmente e atualmente também psicológica e psicanalítica) serve de exemplo para mostrar o quanto demorou para essa clínica se instalar como prática institucional (Inglaterra, 1960). Alguns autores compreendem seu surgimento a partir da observação do desenvolvimento do bebê. E muitos trabalhos foram e ainda vem sendo produzidos nessa perspectiva, onde o foco principal é antes o bebê e os avatares de seu desenvolvimento a partir da relação mãe/bebê, do que propriamente o psiquismo materno (MISSONIER, 2012).Partindo dessa observação que se evidencia na bibliografia revisada, podemos concluir que a sensibilidade do psiquismo materno resta sempre secundário nas pesquisas mais recentes e atuais. É nesse ponto que o objeto em questão começa a adquirir forma, pois encontra sua justificativa, uma vez que se propõe não apenas em analisar algo que aparece como pano de fundo das inúmeras pesquisas na área da perinatalidade, mas, principalmente, por que pretende lançar luz sobre uma temática tão importante para compreensão do psiquismo da mulher num determinado momento de sua experiência.Diante de tantas facetas e abordagens, como objeto pode ser abordado? Qual seria de fato o objeto? Seria antes o psiquismo da mulher no pós-parto ou o adoecimento psíquico materno? Pois há uma distância entre esses dois objetos. Na primeira abordagem, o objeto seria melhor definido a partir das operações psíquicas que supostamente ocorrem na mãe no período posterior ao parto, considerada como algo particular do pós-parto, e portanto, devendo ser considerado como geral, ou seja, todas as mulheres forçosamente passariam por isso no puerpério. Enquanto que na segunda abordagem, estamos falando de uma estatística, a saber, que o risco de apresentar uma depressão no pós-parto é 3 vezes maior que em qualquer outro momento da vida da mulher (COX, 1994 apud LEBOVICI,S.; MAZET, P., 1998). E, nessa perspectiva, consequentemente, enveredaríamos pelos números como ponto de partida para estudar um fenômeno social que se apresenta com relativa frequência e intensidade na população feminina da família ocidental. Não obstante, estaríamos lidando com um objeto que pode ou não se manifestar nas mães do pós-parto, devendo ser analisado não apenas as psicopatologias, mas a dimensão social e histórica da mulher.Essa reflexão nos faz observar que cada um dos objetos nos direciona para conceitos e campos de pesquisa específicos e distintos, ao menos em alguns momentos. Se o foco são as operações psíquicas, estamos diante de abordagens mais psicanalíticas, que estudam o funcionamento do psiquismo. Porém, se a questão principal é o adoecimento, estamos falando de patologias, e, portanto, recorreremos à psiquiatria mais do que à psicanálise. Devo destacar que a psicanálise entra nesse contexto muito mais como pressuposto teórico do que apenas viés de problematização do objeto de pesquisa.E nesse caminho, no entrecruzamento da psicanálise e psiquiatria, me deparo o tempo todo com inúmeros questionamento, mas talvez o maior deles seja: Por que a experiência reconhecida como a mais realizadora na vida de uma mulher, a saber, o nascimento do filho, é ao mesmo tempo o momento onde vemos surgir o maior número de psicopatologias mais do que qualquer outro momento da vida das mulheres? Pergunta essa que me leva a definir duas linhas argumentativas. A primeira, já mencionada, seria a suposição de que a mulher se depara com um psiquismo vulnerável, próprio do período pós-natal, onde o limite entre a sanidade e a loucura é extremamente frágil. Não à toa, tenho ao alcance das mãos, autores que denominavam essa realidade do psiquismo materno de loucura materna. Recorro a Winnicott como exemplo, com seu conceito de Preocupação materna primária, a qual ele reconhece como “um estado psicológico” muito especial da mãe (WINNICOTT, 2000[1956]). Segundo o autor,Essa condição organizada (que seria uma doença no caso de não existir uma gravidez) poderia ser comparada a um estado de retraimento ou de dissociação [...] ou mesmo a um distúrbio num nível mais profundo, como por exemplo um episódio esquizóide[...] (WINNICOTT, 2000[1956], p. 401).De acordo com suas próprias palavras, portanto, uma loucura não patológica, mas sim necessária para que a mulher desempenhe sua função maternante tão fundamental ao desenvolvimento do bebê, como podemos ver anunciado na sequência de seu texto: “não acredito que seja possível compreender o funcionamento da mãe no início mesmo da vida do bebê sem perceber que ela deve alcançar esse estado de sensibilidade exacerbada” (Ibid., p. 401). Daí a justificativa para o título. Segundo esses autores que defendem a loucura “necessária” da mãe no pós-parto, esse período seria o momento, ou um lugar, onde a mãe (e a mulher) poderia ser “louca”, sem no entanto, adoecer psiquiatricamente. Nesse ponto, nos deparamos com a segunda argumentação: De que depende, ou a que poderia estar relacionada, portanto, o adentramento da mãe na loucura patológica? O que empurra a mãe para a loucura patológica, ou o que falta a ela para sair dessa loucura saudável necessária, porém passageira?Nesse ponto permaneço ainda diante de um rochedo. Algo que barra, que solicita ainda outros tantos percursos – tanto de saberes outros, da sociologia, da história, da medicina, da própria psicanalise, etc., como também de um tempo, tempo psíquico, tempo de elaboração – metaforizando, um tempo gestacional, onde o objeto pode ser gerado, criado, imaginado. A bem da verdade, acredito que o tempo em que me encontro se assemelha ao espaço-tempo de que fala Missonnier (2012) quando se refere ao campo perinatal. Um espaço-tempo onde os personagens desse universo – mãe, pai, bebê – passam por um momento de experiência e transformação que só posteriormente podem realizar, de fato, o que lhes aconteceu. É um momento onde os conteúdos chegam, as reflexões se intensificam, mas só depois é que se pode concluir alguma coisa. Enfim, me encontro nesse espaço-tempo, onde o objeto já possui forma, porém permanece diante de inúmeras possibilidades de questionamento e problematização até adquirir asas e alcançar os rumos que os conceitos e os saberes teóricos vão conduzi-lo.

Referências Bibliográficas:

ESQUIROL, J.-E.-D. De l’aliénation mentale des nouvelles accouchées et des nourrices. In: Les introuvables de la Psychiatrie. Premier Tome. Paris: Frénésie Editions, 1989. Collection INSANIA. p. 115-136.

LEBOVICI, S; MAZET, P. Psychiatrie Périnatale. Paris: P.U.F., 1998.

MARCÉ, L.-V. Traité de la Folie des femmes enceites. Paris: L’Hartmattan, 1858.

MISSONNIER, S. Manuel de Psychologie clinique de la périnatalité. Paris: Elsevier Masson, 2012.

WINNICOTT, D.W. Preocupação Materna Primária (1956). In: Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000. p. 399-405.