Sobre a gestação

Hoje se comemora o dia da gestante. Período na vida da mulher de diversas e intensas emoções.

Cada gestação é única. E tem um sentido particular e inconsciente para cada uma de nós. O bebê que carregamos no ventre representa muito mais coisas do que a maternidade e a chegada do filho. Esse serzinho tão pequenininho, desde o iniciozinho de sua existência, mesmo como ser celular e embrião, tem uma função para nós desconhecida. E que se constitui como função distinta para cada pessoa da família. Ou seja, um filho não representa inconscientemente a mesma coisa para o pai e para a mãe, uma vez que o lugar que o filho ocupa na vida de cada um tem a ver com a história de cada um. E, evidentemente, nenhum de nós possuímos a mesma história, não é mesmo? Em outras palavras, a chegada de um filho tem a ver com o vazio, com a falta de cada um. Com marcas que a nossa própria constituição como sujeito no mundo nos deixou. E essa falta não tem nome. Não tem nome porque ela é indizível, remonta às experiências mais primitivas e estruturantes do ser humano. Dessa forma, se, por um lado, a chegada do filho pode promover a realização do desejo de ter um bebê (que muitas vezes também é um desejo inconsciente para algumas mães), por outro lado, ele promove o encontro da mãe com a própria falta, e, portanto, uma ruptura, o encontro com o vazio. Por que? Porque no fim das contas o bebê não é e não pode ser esse objeto de satisfação plena idealizado pela mulher durante a gestação (e muitas vezes antes mesmo da concepção). Ele chora inusitadamente, faz cocô e xixi em momentos não esperados, acorda nas horas mais impróprias possíveis, mama demais ou mama de menos, demanda a presença da mãe quando ela se encontra esgotada, e etc, etc. Enfim, ele é um ser humano assim como ela. Um sujeito em formação que desde muito cedo manifesta suas vontades e personalidade. E que desde muito cedo demonstra que nem sempre ele poderá corresponder aquilo que se espera dele. E é, justamente por isso, que precisamos de um tempo para se adaptar… É por isso que precisamos de um psiquismo vulnerável, para que possamos nos identificar com as novas exigências… para que possamos nos reorganizar diante dos novos desafios e desconstruir as nossas expectativas… Há mulheres que manifestam mais dificuldades nesse processo de adaptação, e muitas vezes acabam apresentando uma depressão puerperal. Mas mesmo aquelas que não adoecem psiquicamente, acabam apresentando um estado emocional que se assemelha à depressão, e que é atualmente conhecido por baby blues. Durante a gestação é possível realizar um acompanhamento psicológico que denominamos pré-natal psicológico como forma de prevenção não apenas de possíveis patologias psíquicas do puerpério, mas também, para ajudar a mulher a encarar os novos desafios e conflitos de forma menos dolorosa.