Algumas palavras sobre a maternidade

Será que alguma mulher está preparada para viver algo como a maternidade? Não me refiro ao que as pessoas acreditam que é ser mãe, mas àquilo que de fato é vivenciado quando uma mulher se tornar mãe. Difícil não é? Tanta emoção e tantos sentimentos desconhecidos e arrebatadores... Recentemente ouvi alguém perguntar para uma amiga que estava perto de ter neném se ela estava preparada. De imediato pensei comigo mesma (acho até que comentei algo em voz alta, mas o que pensei foi muito além do que minhas palavras manifestaram) que era impossível uma mulher estar preparada para a maternidade. Sim, ela pode se encontrar tranquila, em paz, ansiosa pela chegada do bebê, por querer tanto conhecer o rostinho dele... mas preparada, não sei não... Pode estar até mais ou menos preparada ou melhor pode estar de sobreaviso, informada sobre o cansaço, sobre as dificuldades, sobre as noites sem sono, pode até se sentir preparada para dar banho, trocar fralda, mesmo que reconheça que tudo é um aprendizado constante. Mas preparada de fato... Será? Me refiro às sensações, aos sentimentos, as alegrias e tristezas, as angústias, a ansiedade, a sensação de aprisionamento, de dependência, de fragilidade... todas as mudanças que um filho promove na vida da gente, mas principalmente, na cabeça da gente. É quase uma loucura!! Nos estudos que venho aprofundando verificam-se que no período do pós-parto as mulheres se encontram psiquicamente vulneráveis. É inclusive o período onde se pode observar (através de pesquisas quantitativas) que as mulheres mais adoecem psiquicamente. Essa vullnerabilidade é possível perceber na prática - me deparo com ela praticamente todos os dias na minha clínica. Nesse percurso me aproximei de todos os tipos de autores. E muitos deles me fizeram questionar sobre as manifestações patológicas dessas mulheres mães e recentemente paridas. Imaginem que a mulher quando traz ao mundo um filho elas se deparam com um universo todo outro. Além dos hormônios totalmente alterados, e das mudanças corporais que os acompanham, a mulher se encontra diante de experiências corporais e psíquicas que ultrapassam qualquer descrição teórica que se pretenda dar conta do íntimo das mães. Pois é, diante de todas essas alterações o normal, o esperado, deveria ser de que a mulher enlouquece, não é mesmo? Pois, qual o ser humano que diante de tantas variáveis em transformação se manteria são? Mas nossa sociedade, crítica como é, não consegue assimilar que a maternidade não pode ser entendida apenas como resultado de uma constituição biológica feminina. Ou seja, para além do seu caráter biológico, existem emoções e sensações que estão distantes de uma naturalização. A maternidade requer renúncia e dedicação... uma entrega. E desde quando esse tipo de coisas podem ser encontradas no nosso DNA? Na nossa constituição feminina? Somos seres constituídos dentro de uma história particular. E essa história de cada mãe, de cada pai, de cada casal, de cada bebê e de cada família, vai influenciar as experiências vividas de cada mãe.  Existem sim expectativas, ansiedades e medos muito semelhantes entre as mães em geral, mas existem também todo um psiquismo particular (e aí entra a história de cada um) que funciona como referências internas muitas vezes difícil de identificar de forma consciente.  Ser mãe, portanto, é algo que cada mulher vai descobrir por si mesma, ao longo de sua maternidade, que não tem fim nunca. Pois, uma mãe nunca deixa de ser mãe. Ela precisa, certamente, deixar que seu filho siga sem ela, a partir de um determinado momento. E posso assegurar que essa é a tarefa mais difícil que uma mãe precisará realizar: cortar o cordão umbilical (a cada dia um pouco mais), ou seja, deixar cada vez mais existir menos na vida de seu filho, para que ele possa um dia passar desse papel de filho e filha para ser também um pai ou uma mãe.  E nesse percurso onde ela ao mesmo tempo se dedica por um lado, e por outro tenta mostrar que ele consegue seguir sem ela, surgem todas as dúvidas e dificuldades que nem sempre podemos imaginar e que fazem parte da difícil tarefa de educar um filho, além, é claro, das ambiguidades naturalmente humanas. Pois além de coisas que sabemos serem necessárias temos que nos haver com o cuidado de transmití-las de forma adequada a cada filho, considerando as particularidades de cada serzinho e de cada personalidade em desenvolvimento. E mais além disso temos todo nosso íntimo, nossos desejos, cansaços e conflitos para lidar. Esses são sempre colocados, de certa forma, em segundo plano, pois os deveres maternos são urgentes. Vejam então, que nada disso pode estar antecipadamente bem organizado dentro das mães de tal forma que elas estejam sempre preparadas para o que surgir. Não tem como!! É o caso de mães de segundo e terceiro filho. Algumas coisas ficam mais fáceis, talvez (vale considerar as particularidades de cada caso), mas de qualquer forma, não significa que estejam prontas, pois cada criança com sua personalidade, com sua história vai impor manejos diferentes e desafiadores para os pais. Assim como cada mulher também é um universo particular e cheio de personalidade e história pessoal. Ter um filho é sempre uma descoberta nova, diária, cotidiana. Aprendemos a ser mãe com cada filho que temos e não paramos nunca de aprender, pois cada fase, cada etapa de seu desenvolvimento requer de nós, mães (e pais) um remanejo de postura, de tom de voz, de cuidado, de firmeza, de manifestação de carinho, e por aí vai... quando falar algo... quando ficar calada... Pois é, até o nosso silêncio é preciso calcular.  E ainda, em muitos casos, é até necessário manejar e negociar a participação mais ativa do papai – que tantas vezes se encontram atrás da cortina como mero espectador – intervenções que podem ajudar no processo de aprendizado e desenvolvimento da criança. O “não” tão fundamental para aprender os limites, tantas vezes precisa ser sofridamente negociado consigo mesma. Em outros momentos, por sua vez, é necessário repensar numa outra palavrinha que surta mais efeito.  Trocando em miúdos, essa coisa de ser mãe é um trabalho de migalhinha, nãe é?! Observar cada fenda... deixar de observar tanto em outros momentos e deixar a coisa fluir naturalmente... em outras, ficar atenta aos outros além do filho, uma babá, a avó ou o avô, o papai... e mais a cozinheira, a facheira... e ainda tem que se preocupar para que a família não acabe funcionando em função do bebê que acaba de chegar... Difícil!!! Mas maravilhoso! Não esqueçamos dessa parte, não é mesmo!! Maravilhoso ver o sorriso no rosto! Um "bom dia mamãe" cheio de alegria! Os "te amo mamãe" diários e tão verdadeiramente cheios de amor!! As conquistas cotidianas no processo de desenvolvimento comemorados com entusiasmo e sempre com muita emoção! A escrita estranha que chega ao desenho do próprio nome... os desenhos impossíveis de decifrar até o rosto que tem tantos olhos que mais parece um monstro (e de fato o é, acabamos sempre descobrindo, rs)... as histórias contadas cheias de imaginação... as perguntas curiosas sobre o mundo, as pessoas e as coisas... um homenzinho, uma mulherzinha que vão se formando a cada dia sempre de forma surpreendente e saudosa, pois sempre ficamos com a sensação de que eles crescem muito rápido e que o tempo passa e não conseguimos aproveitar tanto aquele momento quanto gostaríamos. E aí, como não enlouquecer um pouquinho, não é mesmo! É por isso que acredito tanto no cuidado que devemos ter com as mães, principalmente nos primeiros meses do pós-parto, pois a experiência materna nesse período, eu poderia dizer que bem mais que nos outros momentos da maternidade, invade a mulher de tal maneira que se ela não for bem assistida, amada, cuidada, essa vivência pode se transformar em algo adoecedor. Deixamos de falar numa loucura saudável e tão coerente com o momento repleto de emoções e mudanças, para nos depararmos com algo que faz a mãe sofrer e desaparecer.  Mas, a bem da verdade, a mãe precisa de cuidado o tempo todo! Afinal de contas, como pude enumerar algumas das inúmeras varáveis que encontramos nessa aventura que é a maternidade, não se trata de um caminho fácil. Pois é, a maternidade é muito mais do que escutamos, do que falamos, do que lemos nos livros e do que vemos nos filmes! A maternidade é algo que apenas quem é mãe (seja mãe biológica, mãe avó, mãe solteira, mãe adotiva, pãe -pai mãe...) sabe o que de fato ela representa. E definitivamente não estamos nunca preparadas para toda essa emoção e desafio!